segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Incipit vita nova



Na sua pequena obra O Futuro de uma Ilusão, Freud afirmou que a religião era uma neurose coletiva da humanidade. A religião surgiria como um modo do homem humanizar as forças terríveis da natureza, amenizar sua culpa pelo sentimento originário antagônico ao seu pai e controlar simbolicamente o destino, especialmente o medo da morte.

Malinowski segue na mesma direção de Freud no seu Argonautas do Pacífico Ocidental quando afirma que a religião é uma organização cognitiva do mundo que dá sentido ao mesmo e alivia o sofrimento humano.

Diante do poder indiferente da natureza e do destino, parece natural e até mesmo sábio que o homem tenha criado seus deuses, celebrado este mundo invisível para encontrar um pouco de paz. Mas há outra dimensão na religião que, derivando das perspectivas citadas, aponta para uma nova direção: a religião é o lugar onde o homem busca uma verdade absoluta.

O homem sempre pensou na figura de um deus ou ser diferenciado que funcionava como um mensageiro entre os homens e estas verdades superiores, divinas e absolutas: Thoth no Egito Antigo, Hermes na Grécia Antiga e os Anjos entre os judeus. Estes mensageiros informavam aos homens a vontade dos deuses, a superioridade desta vontade e a verdade que estava escondida por trás delas. O homem se fazia pequeno diante de sua própria criação num processo de analogia com o poder da natureza.

Mas há uma diferença interessante quando a questão é pensar no poder divino. Algumas religiões – como a grega ou celta, por exemplo – acreditavam que os deuses não eram superiores ao poder devastador do destino (que eles chamavam de Moira e que Parmênides pensava como a atribuição que concedendo reparte e liberta o ser, abrindo, em definitivo, a história do próprio ser) e que, por tal razão, não poderiam ser onipotentes.

Outras tradições religiosas já pensavam em deuses com poderes absolutos, sendo estes os criadores do destino e, como causa deste, capazes de controlá-los de acordo com a variação de suas vontades. Para facilitar a relação com as diversas forças invisíveis que atormentavam os homens, Amenophis IV criou no Egito Antigo a ideia de um deus único, incriado, causa de tudo e onipotente. Era mais fácil relacionar-se com um ser único do que com um panteão repleto de vontades antagônicas. Pela primeira vez na história da humanidade, o homem tinha que se relacionar com um deus apenas.

Os judeus seguiram esta proposição egípcia e mantiveram em sua religião a ideia de um deus único. Mas como a mente humana é capciosa e dada à repetição, os judeus mantiveram a pluralidade dentro da unidade (conceito que Platão irá repetir no seu Diálogo Parmênides) e deram ao seu deus único 72 nomes e preencheram o invisível com anjos, potestades, tronos, serafins, querubins, dominações e virtudes, criando um pseudo-animismo que nada deve às tradições originárias africanas – e, de fato, todas estas tradições surgiram da mesma fonte. ( O cristianismo tentou radicalizar esta diversidade, mas creio que a radicalização sobre um deus único foi conseguido apenas com o islamismo).

Entretanto, seja como for, a questão essencial é: se realmente há um deus único ou deuses que se comunicam com os homens ( e são sempre homens escolhidos por alguma virtude moral), onde está a verdade absoluta? Ou seja: se realmente os intermediários escreveram esta verdade absoluta, onde ela se encontra? Que livro realmente está falando a verdade? Isso significa: ou todos estão certos – e aí somos obrigados a reconhecer a validade da multiplicidade de deuses – ou todos estão errados (invalidando qualquer verdade religiosa) ou apenas um está certo – e esta seria a religião universal.

E mais ainda: se apenas um está certo – o lugar onde deus se comunicou de modo absoluto com os homens – onde está esta certeza? No Antigo Testamento? Novo Testamento? Alcorão? Livro dos Espíritos? Zend Avesta? Baghavad Gita? Livro da Lei de Thelema? No Livro dos Mórmons? Ramayana? Bardo Todol? Livro dos Mortos Egípcios? A lista é quase interminável. Mas a resposta é simples: a verdade está naquele livro que a pessoa decidiu tomar para si como sua religião. E é aí que começam os problemas, as intolerâncias, os ódios seculares, as guerras e a falta de respeito com opiniões opostas.

No mundo, há pessoas que precisam de religião e outras que não precisam. Porém, parece-me que a tolerância está mais presente no segundo grupo. E isso se justifica quando percebemos que a religião é um grande poço de criação de medos e que a verdade funciona como uma região para espantar o medo. Todos os livros acima citados incutiram algum medo nos homens. Este medo, de fato, é originário do medo primevo do homem diante do desconhecido. E que se repete em seus escritos religiosos: temer sozinho não é bom, então vamos temer todos juntos!

Como filósofo, sou extremamente tolerante com qualquer expressão do pensamento humano desde que não desemboque num protótipo de nazismo. Jung dizia que a religião é uma dimensão necessária do homem, assim como a ciência e a arte – fazemos nossas escolhas e seguimos em frente respeitando as escolhas alheias.

E, para celebrar esta tolerância, quero citar uma conversa de meu amigo Flávio Minno com o seu chefe que é espírita. O chefe – e chefe é aquele cara que sempre está certo – dizia que não concordava com os feriados católicos no Brasil e que os mesmos deveriam ser abolidos. Flávio Minno me disse que não teve coragem de dizer ao chefe, mas pensou exatamente no posto: o Brasil deveria, sim, incorporar feriados de todas as outras tradições, ou seja, vamos decretar feriado no Hannukkah, no Ramadam, vamos criar o dia Allan Kardec, o dia dos Orixás, o dia da Iluminação de Buda, etc.

Um homem idealista pensa assim: como seria bom se o mundo fosse um lugar de tolerância onde os opostos pudessem conviver em paz, celebrando, celebrando sempre a diferença e o respeito. Mas nós não conseguimos nem tolerar o próximo e já estamos falando em amor incondicional. Assim está difícil... muito difícil!

Como dizia o poeta: Incipit vita nova (Que comece a vida nova!).



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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O hic et nunc da obra de arte


Os pensadores da Escola de Frankfurt são todos devedores de Marx, mas é em relação a Hegel que há um paradoxo interessante. Quando se debruçaram sobre a Fenomenologia do Espírito e a Lógica de Hegel, estes pensadores produziram ideias que não mantiveram uma mesma linha de pensamento. A Dialética  Negativa de Adorno, por exemplo, aponta para um contraponto em relação à dialética positiva hegeliana, enquanto a obra Razão e Revolução de Herbet Marcuse nos oferece uma visão quase que estritamente política sobre Hegel.

Mas quando o assunto é a estética hegeliana parece que todos os frankfurtianos concordam em um ponto: a arte acabou! A realização do espírito absoluto significa o fim da História e do pensamento filosófico e na sua esteira surge o fim da arte. Umberto Eco nos alertou sobre os excessos dos frankfurtianos e suas visões apocalípticas. É preciso pensar com mais acuidade o nosso tempo histórico para vislumbrarmos a realidade de maneira menos drástica no que se refere à arte.

Walter Benjamin indica no texto A Obra de Arte na Época de sua Reprodução Técnica que a mais perfeita reprodução de uma obra de arte pode manter seu conteúdo, mas não o seu hic et nunc (o aqui e agora). Isso significa que a aura da obra se fragmenta na sua reprodução, uma vez que a presença da obra é elidida na técnica e no confronto com o público.

Benjamin estava preocupado com a técnica da fotografia e do cinema. Estas técnicas não mantêm a autenticidade da obra de arte e aí nos vemos em outro terreno: a questão da originalidade da arte e de seu lugar de expressão. É a desvalorização do seu hic et nunc que indica a perda da aura da obra de arte, ou seja, seu mistério e sacralidade. Não preciso mais me deslocar para outro país para ver uma pintura de Rafael: a internet permite que o quadro chegue até mim.

Para Benjamin, seguindo Duhamel, esta reprodução retira da obra de arte o espetáculo essencial de trazer novas ideias, instigar, indagar, incomodar, levantar questões sérias e iluminar as paixões. A arte, agora dominada pela Indústria Cultural (ou seja, ninguém mais lê a Ilíada de Homero, mas todos assistem Tróia com Brad Pitt), não porta mais este espírito essencial. A arte, para Benjamin, deve ser politizada.

O apocalíptico desta visão reside numa questão histórica. Nós, os contemporâneos, ainda não reconhecemos a dimensão exata do tempo em que estamos vivendo. Não conhecemos ainda os nossos limites. O Renascimento produziu tantos gênios exatamente por ter atingido um limite em todos os sentidos: o mercantilismo e seus desdobramentos com o mundo novo; Lutero e as dimensões culturais da Reforma; Gutenberg e a liberdade do conhecimento diante dos copistas da Igreja; a nova política de Maquiavel; Petrarca, Dante e Camões escrevendo em seus idiomas pátrios; Ficino e Mirândola elaborando uma teologia cabalística e Da Vinci estudando anatomia e entendendo a beleza do corpo humano ao modo dos gregos e romanos.

Todas estas mudanças indicaram os limites do tempo anterior e isso foi um prato cheio para os artistas que se reconheceram. A pós-modernidade está cheia de referências que apontam para todos os lados, menos para nós mesmos. Ainda não nos descobrimos em nosso próprio tempo histórico e isso é sentido na arte. Não se trata mais de uma questão de técnica ou reprodução. O tempo de Benjamin já foi absorvido.

Como a arte cria mundo e verdade – e mundo e verdade para o homem do presente – é muito natural que ainda não tenhamos atingido um novo Renascimento, pois simplesmente não sabemos para onde voltar. Mas talvez seja um retorno ainda mais originário o que nos espera: um retorno para nós mesmos. Lévi-Strauss e Foucault, com o estruturalismo, pensaram nas estruturas inconscientes como bases para nossas ações e pensamentos. Sem querer ser profético, acredito que chegará o tempo em que tomaremos consciência destas estruturas e aí poderemos nos dizer de modo mais originário: é aí onde a arte verdadeira tomará lugar, onde os artistas se farão sentir com mais força.

Hoje, num tempo escasso e de vozes escassas, todos são artistas, todos são poetas, pintores, músicos, escultores, etc. Temos mais artistas do que público: todos querem falar, mas ninguém quer escutar. Quando amadurecermos uma escuta atenta sobre o nosso ser, creio que estaremos aptos a separar o joio do trigo e respirar arte mesmo dentro da mais absoluta época de sua reprodução técnica. Os verdadeiros artistas foram aqueles que, antes de tudo, souberam escutar.


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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Que educação é essa?


Eis o que reza o artigo 2105 da nossa Constituição Federal: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. E o artigo 206, VII, afirma a garantia da qualidade do padrão de ensino nas escolas públicas.

O texto da lei é muito correto e maravilhoso, mas a realidade e a prática são outras. O ensino público no Brasil – com raríssimas exceções como o Colégio de Aplicação no Recife – é péssimo. Para completar a má qualidade no ensino público, a lei garante aos estudantes a progressão continuada que pode ser traduzida como uma aprovação automática.

A educação que deveria formar cidadãos conscientes de seu tempo histórico, da dimensão das ciências estudadas, dos seus direitos e deveres, na verdade é formado apenas como mais uma estatística de cunho estritamente político. Não formamos pessoas que possuem aquilo que a lei rege, ou seja, cidadãos que possuam um pleno desenvolvimento como pessoa. Este desenvolvimento está mais atrelado ao fato de manter o aluno na escola do que realmente atingir a proficiência que o ensino deveria atingir.

Há alguns anos, passei quatro semestres alfabetizando crianças e adolescentes de uma comunidade carente próxima à minha casa. Todos eram alunos de escolas municipais. Alguns destes adolescentes estavam cursando o segundo ou terceiro ano do 2º grau e sabiam apenas escrever seus nomes. Nem analfabetos funcionais eles eram. Todos receberiam seus diplomas de conclusão de 2º grau sem saber nem mesmo escrever e ler.

A aprovação continuada permite que o aluno siga para o ano seguinte sem ter dominado os conteúdos estudados. O aluno simplesmente completa os números de um discurso político-social extremamente nefasto e que cria, sem dúvida alguma, aquilo que os pedagogos chamam de geração perdida. O conhecimento, de fato, foi perdido para estas gerações. Pior ainda: o poder de transformação que o conhecimento possui nunca será visitado por estes cidadãos.

Nunca concordei com aquele discurso monocromático de Cristóvão Buarque sobre a educação. Claro que a educação é uma coisa fundamental para qualquer sociedade que queira atingir um nível aceitável de civilidade. Mas apenas a educação sozinha não dá conta desta tarefa. É preciso urbanizar as áreas mais pobres. Platão afirmava que o homem só pratica o bem quando está no bem. Certas favelas no Brasil – e basta citarmos a Ilha do Maruim, o Coque e a V8 na RMR para entendermos esta assertiva – são nichos de uma realidade subumana, degradante e que muito possivelmente arrasta consigo qualquer vontade antagônica, ou seja, qualquer vontade de mudar, de melhorar.

Além do mais, economicamente é necessário que criemos um ambiente capaz de promover a integração social através da criação de oportunidades concretas para os menos favorecidos. Atingir um equilíbrio econômico é essencial para que determinada sociedade possa viver com um pouco mais de paz e respeito entre as pessoas. Sendo assim, educação, urbanização e crescimento econômico não podem estar caminhando em vias diferentes e distantes uma da outra. Por isso que um discurso que indica apenas a educação como a grande salvadora da pátria corre o risco de não ser efetivo.

Mas, retornando ao tema educação, é um absurdo gritantemente cômico percebermos que a educação brasileira não educa. Há duas frentes aqui: 1º - Os estudantes recebem um diploma de 2º grau sem dominar nenhuma das competências exigidas por este nível de formação e isso significa mão de obra barata capaz de ser alocada com facilidade, o que permite a manutenção deste status quo de distorções sociais inegáveis e 2º - A educação deveria preparar o indivíduo sempre para aptidões superiores, ou seja, a educação deveria preparar o aluno para uma formação técnica específica ou para enfrentar com mais desenvoltura o ensino superior. Estamos formando uma massa enorme de estudantes que não estão aptos para a formação técnica e tampouco para a formação superior que exige aptidões muito mais específicas e rigorosas.

Não ensinamos nossa juventude a desenvolver um pensamento crítico, analítico e profundo sobre a realidade, bem como não desenvolvemos jovens capazes de criar uma conexão entre as ciências estudadas e suas aplicações no mundo real. Desde os descasos criados em nossa educação pela Ditadura Militar que não temos mais um discurso realista sobre a questão. Quando escutamos os nossos candidatos à presidência falando sobre o tema é de espantar o lugar comum e a falta de clareza de seus discursos – inclusive, creio eu, que estes são os candidatos menos expressivos de todos os tempos, todos confusos em seus discursos e apontando para denominadores comuns que nos deixam de orelhas em pé (e não cabelos!).

Parece que nossos educadores esqueceram completamente os ensinamentos de Comenius em sua Didática Magna: o conhecimento deve estar atrelado às experiências cotidianas, deve-se atingir qualidade no manejo dos conceitos de todas as ciências e todas as artes e a educação deve ser, antes de tudo, realista e com um poder real de transformar a realidade de acordo com as demandas do tempo histórico e dos anseios das pessoas.

Enquanto não formarmos pessoas realmente instruídas e que vivam num ambiente digno, creio que ainda seremos obrigados, por muito tempo, a viver numa sociedade violenta, suja, barulhenta e corrupta. Como sempre, sentaremos tranquilamente numa mesa de bar apenas querendo tomar uma cerveja gelada e comer um tira gosto qualquer quando sempre surgirá aquele sujeito infame colocando brega no som do carro numa altura tão demoníaca que o próprio inferno se sentirá diminuído diante de tanta falta de educação.

Talvez devêssemos escutar um pouco mais o que o velho Comenius tinha a dizer. Para nosso próprio bem.




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domingo, 8 de agosto de 2010

A lista da negação


Há várias coisas que nunca farei em minha vida, mas há três em particular que acredito que valem a pena compartilhar. Esta trindade da negação possui um caráter muito pessoal e razões um tanto quanto abstrusas, mas que são facilmente elencadas:


1. Nunca ler Paulo Coelho.

2. Nunca comer na McDonald´s.

3. Nunca assistir Titanic.

Qualquer um pode pensar que é muito fácil elaborar uma lista do que nunca irá fazer em vida – e é. A questão fundamental é sabermos até que ponto irá a crença do indivíduo em suas próprias convicções. Quanto a mim, posso afirmar sem titubear que jamais farei as ações acima descritas. Mas quais são os motivos para essa negação? Vamos lá.

Nunca ler Paulo Coelho. PC representa para mim a mais grave degeneração daquilo que ainda chamamos de literatura. Nunca li PC e pode parecer estranho falar daquilo que não conhecemos. Mas, em verdade, quando ouço as pessoas que leram PC comentar sobre suas ideias, sobre seu estilo e sobre sua importância no mundo das letras (PC acredita que um dia será um clássico. Dá pra imaginar Dante, Goethe, Kafka, Proust, Joyce, Dostoievski, por exemplo, ao lado deste senhor? Creio que não) ou quando vejo uma entrevista sua na tv, uma náusea imediata abate-se sobre mim. Alguns ainda dizem que os franceses lêem muito PC e isso corrobora sua posição como bom escritor. Ao contrário: isso só prova que há muitos franceses idiotas. Gado é gado em qualquer lugar do mundo, amigo.

PC faz um plágio descarado e mal feito das ideias místicas de Carlos Castañeda. Mas exigir que o gado conheça ao menos Castañeda já é exigir demais. E pior: exigir que o gado possua a capacidade de comparar um e outro é ainda mais extravagante. O senso do comum, do imediato, do fácil em literatura é muito divulgado hoje em dia. Creio que no mercado do sucesso da literatura predominam três tipos fundamentais de escritores: aqueles que escrevem auto-ajuda (por favor, não me perguntem se já li Augusto Cury!), aqueles que escrevem de modo rápido e descritivo como se o leitor estivesse assistindo um filme e aqueles que escrevem à velocidade da luz sobre personagens ou feitos do passado (é interessante como a maioria das estantes das livrarias no setor de literatura contemporânea esteja tomada de romances sobre Ramsés, Templários, Ordens Secretas, Pensadores Medievais, etc. É, realmente, uma praga.).

Parece difícil não comparar a literatura contemporânea de mercado com aquele dito de Adorno sobre a música e a indústria cultural: “[...] o mais conhecido é o mais famoso, e tem mais sucesso. Consequentemente, é gravado e ouvido sempre mais, e com isso se torna cada vez mais conhecido”

Nunca comer na McDonald´s. O paladar e suas sutilezas são totalmente desprezados pela indústria alimentícia das fast foods. Padronizar o ruim é uma calamidade de proporções inacreditáveis. Não falo aqui da preocupação com a qualidade da comida – isso é uma preocupação dos especialistas na área de nutrição. Falo da padronização de um sabor medíocre e que cada vez mais é consumido como uma coisa boa.

Novamente, pode parecer estranho alguém falar do que não conhece. O intrigante nesta estória é que muitas vezes já vimos alimentos de outras culturas que nos nausearam. Não provamos, mas a estética da alimentação é essencial para que possamos apreciar uma boa comida. Vemos programas na National Geographic que nos mostram os mais bizarros pratos e sabemos que nunca poderíamos comer aquilo – a não ser que o cara possua um estômago de ferro e um paladar de hipopótamo.

Adoro hambúrguer e batata fritas – não tenho problemas e frescuras com isso. Mas tenho problema quando vejo uma alimentação padronizada de baixa qualidade ser vendida por um preço surreal. E, para completar a palhaçada, sempre oferecem brinquedos para quem comer este ou aquele prato. É a infantilização da alimentação. Era só o que faltava.

Nunca assistir Titanic. Parece que quanto mais sucesso um filme faz, mas isto é um indicativo de como ele é realmente ruim. A estória de Titanic é conhecida de todo mundo e o filme de James Cameron é um festival de absurdidades. Nunca vi o filme, mas nem precisa. Basta ver o trailer e escutar aquela música tremendamente estúpida e pegajosa cantada por Céline Dion para ser acometido por uma tremenda vontade de vomitar. Quando Cameron ganhou o Oscar por essa produção (feito que se repetiu com Avatar, mais estúpido e amaldiçoado ainda) ficou aquela sensação de que Hollywood tem mais baixos do que altos.

Titanic representa esses filmes esdrúxulos que o gado adora e que são uma porcaria sem fim: O Senhor dos Anéis, Avatar, Piratas do Caribe, Harry Porter, Independence Day, Crepúsculo (e todas as fases da lua e movimentos do sol), Stars Wars, etc. – seria possível passar uma eternidade falando desta lista absurda. Nunca vi nenhum destes filmes e nunca irei vê-los, é claro.

Ao leitor mais melindrado peço que não se identifique e se irrite com a minha lista da negação caso haja algum item que tome parte na lista de seus apreços. Não há verdade nenhuma aqui – entendida em termos filosóficos, é claro – apenas opiniões. Afinal de contas, como sempre rezou a nossa tradição, de gustibus non disputandum, ou seja, gosto não se discute. E opiniões são apenas apreciações pessoais.




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sábado, 31 de julho de 2010

Da juventude ou Incipit Tragoedia


O jovem não se sabe jovem; ele apenas é jovem. O conhecimento de si mesmo não cabe na juventude – eis sua maior potência. A juventude amálgama de uma única vez todas as paixões mais destruidoras, todas as forças e desejos imponderados do indivíduo, arrastando-o com um poder quase sobrenatural para dias curtos, esplêndidos, espantosamente velozes e cheios de intensidade. Quando se é jovem, não se hesita.


Só nos sabemos jovens quando passamos pela juventude e começamos a elaborar religiosa e filosoficamente um sentido para nossa vida. O jovem não está atrás de sentido – em sua pureza estúpida e sincera, em sua crença tempestuosa sobre sua imortalidade, em sua absurda falta de medo - o jovem busca apenas viver com intensidade a sua vida.

E na polaridade natural de tal manifestação da natureza está a ingenuidade, a pressa, uma certeza sem razões da vitória, uma timidez herdada dos ancestrais, um desrespeito a tudo o que é institucionalizado, a tudo o que é moralmente aceito, um conflito com tudo e com todos. Mas é aqui que brota o fogo gigantesco da criatividade artística, as bases que permitirão lembranças incendiárias que preencherão páginas e páginas de livros futuros. O aprendizado é sempre árduo e exige seus tributos.

Sabemos que fomos jovens quando, de súbito, somos acometidos pela noção terrível de nossa finitude. Elaboramos um intricado universo de explicações sobre as coisas e adquirimos uma nova moral. É aqui que entra a religião e a busca por uma vida após a morte: o jovem sabe-se imortal, o adulto crer-se imortal às avessas. O jovem é ignorante, enquanto o adulto, em sua sabedoria, perde aquela potência de viver, acomoda-se demais, torna-se escravo da segurança, dos hábitos, da repetição.

Nietzsche escreveu que “viver é repelir constantemente para longe de si aquilo que deseja morrer”. É ser cruel e impiedoso com tudo aquilo que envelhece e enfraquece em nós, é assassinar sempre e sem piedade. Um sinal de decadência do adulto reside em sua busca por aquilo que foi vivido na juventude. Sua lembrança é frívola, açucarada demais, cheia de ressentimento e um sentimento de pena de si mesmo. Parece dizer: “Oh, bons tempos que não voltam mais. E agora?”. Então, esse moribundo de si mesmo cria um mundo que repete o passado, mas sem aquela força peculiar que o caracterizava e passa por ridículo.

A força da juventude não retorna jamais. A arte da intensidade consiste exatamente em não se fiar no passado ou nas experiências passadas, mas sim viver intensamente a sabedoria do presente com todas as suas limitações e desgastes. O homem revolta-se sempre, seja na juventude ou na vida adulta ou na velhice. Revolta-se contra os limites impostos pela natureza, por sua temporalidade radical, por suas dores, suas angústias. Mas os moralistas são aqueles que querem se negar, negar a potência da vida e de suas paixões incessantes: desejar o nada e não desejar são sempre desejos. E só há desejo onde há o indivíduo e sua força gigantesca de egoísmo (talvez a palavra mais mal compreendida de todos os tempos).

Platão dizia que os jovens eram animais selvagens difíceis de domar. Eis o segredo de toda moral institucionalizada: domar o indivíduo, fazê-lo crer-se rebanho! É preciso, portanto, educar para o comum – perde-se o senso de diferença e de potência.

Novamente Nietzsche: “Esses professores da moral que recomenda ao homem acima de tudo que se autodomine, dão-lhe dessa forma, uma singular doença, ou seja, uma constante irritabilidade e um comichão a todas às emoções e inclinações mais naturais. Seja o que for que lhe aconteça daqui para frente, seja de fora, seja de dentro, seja o que for que ele aí encontre, ou que o atraia, ou que o incite, ou que empurre, parece sempre a este ser irritadiço que o seu domínio sobre si mesmo corre os maiores perigos: já não tem o direito de se fiar em nenhum instinto, de se abandonar a nenhum impulso livre, mantém-se na defensiva, sem repouso, eriçado de armas contra ele próprio, o olhar atento e desconfiado, mantendo eternamente diante da própria torre uma guarda que se impôs a ele mesmo”.

O sentido de rebanho que toda religiosidade acarreta – seja mística ou filosófica – nada mais é do que esse domínio sempre insatisfeito, repleto de exemplos que poderiam ser retirados dos mais fantásticos contos de fada. O velho, enfim, é aquele que começa a acreditar em contos de fada para justificar sua sabedoria e sua decrepitude. Ou seria estupidez?

Sempre que o assunto é juventude e velhice, creio que é quase impossível não pensar no exemplo do velho Bukowski. No romance Hollywood, ele narra as filmagens do filme Barfly que conta as estórias de sua juventude. Bukowski é interpretado por Mickey Rourke. Um dia, no set de filmagem, o velho Bukowski lembra um pouco de sua própria vida e lamenta: "Fiquei um pouco triste por não ser jovem e estar fazendo tudo aquilo de novo, bebendo e brigando e jogando com as palavras. Quando a gente é jovem, pode realmente aguentar uma surra". No mesmo dia, ele vê a cena em que Rourke entra bêbado no quarto da pensão: "A porta do quarto abriu-se e Jack Bledsoe (leia-se Mickey Rourke) entrou cambaleando. Merda, era o jovem Chinaski! Era eu! Senti uma dor mole dentro de mim. Juventude, sua filha da puta, aonde você foi?".

É isso aí!

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domingo, 25 de julho de 2010

Onde encontro a beleza no Recife



Meu amigo Leonardo Neves e eu caminhávamos pelas ruas do Recife Antigo naquela noite incendiária de carnaval. Estávamos infernalmente embriagados, eufóricos e transidos de vinho, conhaque e cerveja. Nossas esposas nos acompanhavam e seguíamos para o estacionamento na Rua da Guia. Era o fim da noite e a longa madrugada iniciava mais um novo percurso. Foi quando chegamos às imediações da Prefeitura do Recife na Avenida Rio Branco.

De súbito, tomei consciência de onde realmente estávamos. Velhas fábricas com suas altas chaminés, construções gigantescas com paredes côncavas e uma predominância absurda de amarelo, ocre e branco em todos os prédios. A luz minguada dos postes se jogava timidamente sobre as construções e compreendi. A paisagem era como se estivéssemos numa antiga cidade industrial, já próspera, mas agora abandonada. Senti-me invadido por uma sensação antiga de beleza e fiquei atônito. O vinho e o conhaque deveriam estar fazendo seu efeito mágico, mas era aquele lugar, aquela cena inesperada e gigantescamente bela que me impressionava. A beleza, assim pensei, decidiu me pregar mais uma peça - e eu só poderia agradecer.

Estes encontros insólitos com a beleza, vez ou outra, acontecem comigo aqui no Recife. Apesar de ser uma cidade mal tratada, mal amada por seus filhos e desrespeitada por seus políticos, o Recife se nega a entregar-se e mantém sua aura ancestral de beleza, de cais e celebração. Lembro de um trecho que escrevi no romance Diário de um Percurso Absurdo: “Recife distende-se sobre um imenso mangue, um distender-se de chumbo, porém pleno de um elevar-se ignóbil e lúcido, um excesso de sal e clareza hierática em tudo que se refere à sua presença física e existencial. Aplastado, o Recife é como um estar suspenso, filtrando - com fúria - o cinza da paisagem, a transpiração de areia dos prédios. Águas! Águas profusas, águas em excesso umedecendo os lábios dos becos, das margens e dos seres. Águas clandestinas de um sol coloquial, formas precavidas e estéreis de um mangue falecido, buscando sua reencarnação com mãos expostas num sal de minúsculas vidas. Águas de um céu nordestino, águas imundas, corpo de uma puta que não quer se vender, águas umedecendo os lábios, águas assinalando as direções dos corpos”.

O que acho interessante nesta cidade é que a beleza se mostra de dois modos (como deve ser em toda cidade, na verdade): há aquele encontro com a beleza já preestabelecido quando, por exemplo, decidimos visitar a Capela Dourada, as ruas do Recife Antigo ou a oficina de Francisco Brennand e há esse encontro fortuito, quase sem querer, quando não somos nós que buscamos a beleza, mas é ela quem decide nos visitar.

Outro encontro destes aconteceu quando certa manhã ensolarada eu levava minha filha pra conhecer a oficina de Brennand e entrei numa rua errada no bairro da Várzea. De repente, ali estava. Uma rua magnífica, com calçadas altas e domadas por um gramado maravilhosamente bem cuidado, estrada de pedras, acácias e flamboyants em profusão, um céu límpido e a sensação de paz. Fiquei maravilhado com aquela rua. Que estranho, pensei, nunca estive aqui antes em toda a minha vida.

Outro encontro desta natureza possui uma característica quase culinária. Era sábado e eu e meus amigos Jamerson e Sílvio – professores da faculdade em que leciono – estávamos no Mercado da Boa Vista de manhã. O local estava lotado como sempre e só encontramos um lugar vago numa bodega na entrada do Mercado. Descobrimos por acaso que ali servia um maravilhoso prato de frios. Pedimos uma cerveja gelada e o referido prato: salame italiano, diversas iguarias de queijo, picles de cebolinha e pequenas salsichas temperadas. Além do mais, havia uma peça enorme de charque à nossa frente e decidimos pedir um pouco daquela carne com farinha e manteiga de garrafa– somos nordestinos, é claro.

Mas foi a beleza da coloração do prato – aquele vermelho rústico do salame elaborando uma composição bem equilibrada com os brancos dos queijos e as sombras do local – que me chamou a atenção. Se eu fosse pintor, com certeza ali estaria um ótimo motivo para elaborar uma natureza morta: cerveja com frios!

Nós, aqueles que buscam incessantemente a beleza, muitas vezes somos brindados com estes encontros que chegam até nós. Não somos nós que buscamos a beleza, mas é ela que vem ao nosso encontro. A arte, então, também pode ser nutrida por esses encontros. Nutrida por esses caminhos obscuros que a vida nos mostra e que, se tivermos um olhar atento, irá nos brindar de vez em quando.

Um Recife aplastado, um Recife meretriz, um Recife amante, um Recife devastado e contraditório. Um Recife vermelho sangue e dor, com suas pontes cortando o dia como se estivéssemos num sonho. Um Recife para poucos e para muitos, uma cidade de mangue, sal, brancura e praças. Um Recife único, o Recife que tanto amo.


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sexta-feira, 16 de julho de 2010

A natureza dinâmica e oculta da poesia





"Ora, onde mora o perigo

É lá que também cresce

O que salva

Hölderlin



O filósofo analítico Rudolf Carnap, no seu artigo Uberwindung der Metaphysik durch Logische Analyse der Sprache (Eliminação da metafísica através da análise lógica da linguagem), faz uma afirmação deveras curiosa: “Poetas líricos, por outro lado, não tentem refutar em seus poemas as sentenças em um poema sobre outro poeta lírico; pois eles sabem que estão no domínio da arte e não no domínio da teoria”. Carnap segue aquele naturalismo científico exigido por Wittgenstein em seu Tractatus-Logico-Philosophicus onde se afirma que “a totalidade das proposições verdadeiras é toda a ciência da natureza (ou a totalidade das ciências naturais)”. O que não se pode falar, diz Wittgenstein, deve-se calar. E falar a verdade, portanto, é possível apenas no âmbito das ciências naturais.

A arte, nesta abordagem, não pode falar sobre a verdade. Esta sentença está diretamente ligada à compreensão platônica de mundo. A arte é uma imitação das coisas reais e por isso, enquanto imitação, não pode falar a verdade, não pode ser uma teoria. A teoria, segundo Max Planck, fala sobre o que pode ser medido: só o que pode ser medido é real. Porém, como poderíamos medir os fenômenos ontológicos como angústia, tristeza, solidão? Esta teoria não daria conta daquilo que é, mas não se mede com exatidão. Mas o que significa, de fato, a palavra teoria?

Heidegger, no artigo Ciência e pensamento do sentido, nos explica que a “teoria assegura para si uma região do real, como domínio de seus objetos. O caráter regional da objetividade aparece na antecipação das possibilidades de pesquisa”. A teoria e a ciência – na direção indicada por Carnap e Wittgenstein – se debruçam apenas sobre aquilo que se mostra, a natureza e aquilo que a natureza produz. Temos aqui, portanto, dois termos gregos: natureza (physis) e produção (poiesis).

Physis, a natureza, segundo Heidegger em Einführung in die Metaphysik, “nos fala do que desabrocha a partir de si, a ação de manifestar-se abrindo-se e, nessa manifestação, fazer sua aparição, de se conservar nesse aparecer e demorar-se nele, numa palavra: diz o reino (daquilo) que desabrocha e dura”. E define produção (poiesis) no artigo A questão da técnica nos seguintes termos: “Todo deixar-viger o que passa e procede do não-vigente para a vigência é poiesis, é pro-dução”.

A arte, inicialmente, não era setor de uma atividade cultural. A arte era um descobridor produtor e que estava diretamente atrelada à poiesis. O desvelo último do real – que atravessa toda arte do belo – era poiesis, portanto poesia. É interessante que um filósofo tão rigoroso como Heidegger possa entender que é “o poético que leva a verdade ao esplendor superlativo [...] que atravessa, com seu vigor, toda arte, todo descobrimento do que vige na beleza”.

Seria muito canhestro afirmar que algo como o belo não é simplesmente porque não posso apontá-lo. A experiência estética é um privilégio ontológico do homem. Um privilégio que o abre constantemente sobre si mesmo e o mundo. A experiência estética afirma o homem no mundo. Se assim não fosse, não haveria sentido algum na existência das pinturas rupestres. O homem primitivo pintava para reconhecer-se, para delimitar seu mundo e a si mesmo, para delimitar o outro e, acima de tudo, o que pode ser pensado, o real.

Quem se pensa poeta sabe muito bem do que estou falando. A poesia não é uma arte fácil – e, de fato, nenhuma é – e exige um mergulho tão profundo sobre tudo que, quando bem sucedido, traz um universo completamente novo, pronto para ser conquistado. A poesia é muito mais do que palavras sobrepostas – a velha teoria dadaísta de Tristan Tzara.

A poesia é questionamento e aprendizagem profundos sobre nós mesmos. O verdadeiro poeta é aquele que, munido com escafandro, mergulha atentamente sobre as coisas, sobre o mundo e sobre sua própria existência. O sentido metafísico da poesia não se encontra num além desprovido de sentido e válido apenas para o âmbito particular da arte. A arte, em si, é toda a grandiosidade e terror de ser humano... demasiadamente.

Rilke cantou: “Sem conhecer nosso verdadeiro lugar, agimos a partir de uma relação real”. Ora, o real é a colocação vigente de nós mesmos, do homem que desde sempre existe num mundo. A poesia, nos seus meandros obscuros e subterrâneos, possui a voz própria dos conquistadores, daqueles que, espantados, não se satisfazem com o real que desabrocha por si mesmo, passando de espectadores para produtores de realidades.

Aquele que escreve poesia sabe que sua voz é um auto-reconhecimento, uma demarcação muito poderosa de sua individualidade e universalidade. A linguagem poética desdobra-se sobre seus mecanismos e traz sempre um ir além da linguagem, dos limites impostos pelo “real”, já que real é a união destes pólos, mas sempre o mesmo e o diferente.

A verdade, a velha alétheia grega, a veritas medieval, é muito rica em seu mostrar-se. Seria muito estranho se tanto poder e vigor não escolhessem uma morada tão digna quanto a poesia para falar de um de seus reinos, o homem. Estamos postos nesta clareira, neste abismo que nos separa e une a tudo: eis o lugar indefectível da poesia.


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